A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 foi lançada durante o 80º Congresso Brasileiro de Cardiologia e traz atualizações importantes sobre prevenção, diagnóstico e tratamento da doença, um dos principais fatores de risco para eventos cardiovasculares. Neste artigo, reunimos os principais destaques do documento para facilitar sua compreensão e aplicação na prática clínica e no cuidado com os pacientes.
Recomendações para medida da pressão arterial, diagnóstico e classificação:
- Classificar a pré-hipertensão abrangendo valores de Pressão Arterial Sistólica (PAS) entre 120-139 mmHg ou Pressão Arterial Diastólica (PAD) entre 80-89 mmHg no consultório com o objetivo de identificar precocemente indivíduos em risco e incentivar intervenções mais proativas e não medicamentosas para prevenir a progressão para Hipertensão Arterial – HA;
- O diagnóstico de HA seja feito quando a PA no consultório for ≥140 e/ou 90 mmHg em duas ocasiões diferentes e classificada em estágios 1, 2 e 3, de acordo com o maior valor de PAS ou PAD;

- Utilizar equipamento automático de braço com o objetivo de reduzir erros e facilitar a obtenção da medida da PA;
- Usar a monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) ou a monitorização residencial da pressão arterial (MRPA) para confirmar diagnóstico de HA e monitorar o tratamento.
Recomendações para avaliação clínica e complementar, e estratificação de risco cardiovascular
- Pesquisar fatores de risco cardiovascular e lesão de órgão-alvo idealmente em todos os pacientes no momento do diagnóstico de HA e repetir essa avaliação pelo menos anualmente, sendo a escolha do método decidida conforme os recursos disponíveis;

- Avaliar o risco cardiovascular utilizando o escore PREVENT – Predicting Risk of Cardiovascular Disease Events;
- Estratificar o risco cardiovascular em indivíduos com pré-hipertensão com o objetivo de orientar o início do tratamento anti-hipertensivo e promover um controle mais adequado dos fatores de risco cardiovascular;
- Estratificar o risco cardiovascular em pacientes com HA com o objetivo de promover uma abordagem mais precisa e personalizada no manejo de medicamentos e direcionamento de metas para controle dos fatores de risco cardiovascular.
Recomendações para início do tratamento anti-hipertensivo
- Medidas não medicamentosas para todos os indivíduos com PA ≥120/80 mmHg;
- Tratamento medicamentoso após 3 meses de medidas não medicamentosas para indivíduos com PA 130-139/80-89 mmHg e alto risco cardiovascular;
- Início de tratamento medicamentoso para indivíduos com PA ≥140/90 mmHg.
Recomendações para metas terapêuticas
- Meta de PA < 130/80 mmHg para pacientes com PA 130-139/80-89 mmHg e risco cardiovascular alto;
- Meta de PA < 130/80 mmHg para os pacientes com HA independentemente de o risco CV ser baixo, moderado ou alto;
- Para pacientes que não tolerem a meta de PA < 130/80 mmHg, deve-se reduzir a PA até o valor mais baixo tolerado;
- Confirmar o alcance da meta de PA com a medida da PA fora do consultório por meio da MAPA ou MRPA.
Recomendações para medidas não medicamentosas
- Diminuição do peso corporal para redução da PA e de mortalidade em pacientes com obesidade;
- Redução da ingestão de sódio e aumento da ingestão de potássio dietético (exceto para pacientes com doença renal crônica) para redução da PA;
- Dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) e a prática de atividade física moderada para redução da PA.

Recomendações para o tratamento medicamentoso
- Associação de medicamentos, preferencialmente em comprimido único e com as classes preferenciais, para atingir metas rigorosas de PA (<130/80 mmHg) e reduzir eventos cardiovasculares e renais;
- Monoterapia para indivíduos com PA 130-139/80-89 mmHg e alto risco cardiovasculares; pacientes com HA estágio 1 de baixo risco (a critério médico, pode-se optar por associação); em indivíduos frágeis; muito idosos (≥80 anos) ou com hipotensão ortostática sintomática, especialmente em indivíduos idosos;
- Para a maioria dos pacientes, o início do tratamento da HA com associação dupla de medicamentos, em doses baixas, preferencialmente em comprimido único, se disponível;
- Uso de diuréticos tiazídicos ou similares, Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) ou Bloqueadores dos Receptores de Angiotensina (BRA) e Bloqueadores dos Canais de Cálcio (BCC) como classes preferenciais para o tratamento da HA e redução de eventos cardiovasculares e renais importantes;
- Uso de betabloqueadores para o tratamento de HA em situações específicas: Insuficiência Cardíaca, Fibrilação Arterial, arritmias, doença arterial coronariana, HA em pacientes em hemodiálise e outras, como enxaqueca, tremor essencial, mulheres que desejam engravidar, varizes esofágicas;
- Uso de espironolactona (ou eplerenona, caso ocorra intolerância à espironolactona) para atingir metas rigorosas de PA (<130/80 mmHg) e reduzir eventos cardiovasculares e renais quando não tiverem sido atingidas apenas com três classes iniciais (hipertensão arterial resistente e hipertensão arterial refratária).
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial e doença arterial coronariana
- A meta de PA <130/80 mmHg para indivíduos com HA e Doença Arterial Coronariana (DAC). Admite-se que reduzir a PA até 120/70 mmHg não aumenta o risco cardiovascular e que pacientes com PA <120/70 mmHg e assintomáticos não necessitam parar ou reduzir a medicação anti-hipertensiva.
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial e doença renal crônica (DRC) em tratamento conservador
- Em adultos com HA e DRC ou DM, a meta de PA < 130/80 mmHg para redução de eventos cardiovasculares e falência renal;
- A escolha de anti-hipertensivos na HA da DRC deva incluir, a menos que contraindicado, o uso de IECA ou BRA, e favorecer a introdução e manutenção de medicamentos com efeito anti-hipertensivo discreto, mas que exibam propriedades nefro e cardioprotetoras, como a finerenona e os análogos dos peptídeos semelhantes ao glucagon 1 (aGLP1) em pacientes com DM e os inibidores do cotransportador de sódio-glicose 2 (iSGLT2), devido ao comprovado efeito benéfico na proteção cardiorrenal.
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial no paciente com diabetes mellitus
- O início do tratamento medicamentoso deve ser imediato (ao diagnóstico) com dois medicamentos, IECA ou BRA, quando houver intolerância ao IECA, associado a BCC ou diurético tiazídico similar.
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial no paciente com obesidade
- Meta de PA <130/80 mmHg para pacientes com obesidade;
- Uso de medicamentos para diminuir peso, tais como os aGLP1 (liraglutida, semaglutida e dulaglutida), que apresentam bons resultados na redução de peso e do risco CV, mas os resultados na redução da PA são modestos.
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial e acidente vascular cerebral e déficit cognitivo
- Meta de PA < 130/80 mmHg para pacientes com AVC ou AIT prévios para redução de eventos CV maiores (IAM, recorrência AVC, morte).
Recomendações para pacientes com hipertensão arterial e insuficiência cardíaca
- Meta de PA <130/80 mmHg para os pacientes com HA, ICFEp (insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada) e ICFEr (insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida);
- Para pacientes com ICFEr e HA, o tratamento com medicações que tenham ação anti-hipertensiva e que melhorem o prognóstico: BB, IECA (ou BRA) e ARM.
Recomendações para abordagem da HA em pacientes idosos
- Meta de PA <130/80 mmHg para a maioria dos pacientes idosos;
- Para idosos frágeis, muito idosos ou com condições que comprometam expectativa de vida, a meta de PA no valor máximo tolerado.
- Nos idosos sob polifarmácia, a revisão periódica de cada um dos medicamentos em uso, a avaliação de eventos adversos e que o tratamento anti-hipertensivo possua o menor número possível de comprimidos ao dia, com a utilização de anti-hipertensivos em combinações em único comprimido de dose única diária, além da ênfase às medidas não medicamentosas.
Recomendações para abordagem da HA em crianças e adolescentes
- Início de terapêutica medicamentosa em crianças e adolescentes com IECA, BRA, BCC de ação prolongada ou um diurético tiazídico para pacientes com HA sintomática, presença de lesão de órgão-alvo, HA estágio 2 sem causa modificável aparente ou HA persistente não responsiva a medidas não medicamentosas, se a PA for ≥ percentil 95 ou ≥130/80 mmHg em adolescentes ≥13 anos de idade.
Recomendações para abordagem da HA em mulheres dentro e fora do período gestacional
- Monitorar a PA em mulheres jovens antes da prescrição de anticoncepcionais e após o início do uso, bem como reforçar a importância de medidas regulares da PA (a cada 6 meses), incluindo medidas domiciliares e o controle dos demais fatores de risco cardiovascular;
- Para o tratamento medicamentoso da HA na mulher durante e após a menopausa, iniciar com a combinação de bloqueador do SRAA com BCC ou diurético tiazídico;
- Metas de PA iguais para mulheres e homens, assim como a utilização das mesmas classes de anti-hipertensivos para o tratamento da HA em mulheres e homens;
- Iniciar o tratamento anti-hipertensivo em gestantes com HA com metildopa ou BCCs di-hidropiridínicos (nifedipina de longa duração ou amlodipina);
- Acompanhamento de longo prazo de toda mulher que teve HA na gestação para a prevenção efetiva de doença cardiovascular.
Recomendações para abordagem da crise hipertensiva
- Em pacientes com elevação importante da PA sem lesão de órgão-alvo aguda (antes denominada urgência hipertensiva), reavaliação ambulatorial em 1 a 7 dias com alvo de PAS < 160 e PAD < 100 mmHg;
- O paciente com emergências hipertensivas deva ser admitido em unidade de terapia intensiva, usar anti-hipertensivos intra-venoso com monitorização da PA e observação da progressão da órgão-alvo aguda.
Recomendações para abordagem da hipertensão resistente e refratária
- Realização preferencial de MAPA para confirmação diagnóstica de HAR e hipertensão arterial refratária, se disponível, ou MRPA.
Recomendações para adesão ao tratamento anti-hipertensivo
- Estratégias envolvendo a atuação de equipe multiprofissional, subsídios, recursos de comunicação/educação e aplicativos para promover melhorias na adesão ao tratamento anti-hipertensivo.
As novas recomendações da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025 reforçam a importância do cuidado contínuo, da atualização profissional e da adoção de hábitos de vida saudáveis para reduzir o impacto da hipertensão na saúde da população. Estar atento a essas orientações é fundamental para garantir diagnósticos mais precisos, tratamentos eficazes e melhores resultados clínicos. Nesse cenário, informação e prática andam juntas para transformar a realidade do controle da hipertensão no Brasil.
Referência:
BRANDÃO, Andréa Araújo; RODRIGUES, Cibele Isaac Saad; BORTOLOTTO, Luiz Aparecido; NADRUZ, Wilson (Coords.). Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC); Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH); Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), 2025.

