Sepse: o que é, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e mais

A sepse é uma condição grave caracterizada pela resposta exacerbada do corpo a uma infecção, seja ela causada por bactérias, vírus ou fungos. Caso não seja rapidamente tratada, pode resultar em morte.

Enf. Nemésia Sousa

Enf. Nemésia Sousa

Enfermeira Cardiologista pelo Programa de Residências do Hospital Sírio Libanês

IMAGEM-SEPSE

Sepse é uma condição grave que ocorre quando uma infecção desencadeia uma inflamação intravascular descontrolada. Essa resposta inflamatória sistêmica pode levar a alterações biológicas, fisiológicas e bioquímicas, resultando em lesão celular e, potencialmente, em disfunção de órgãos e sistemas.

Mesmo que a infecção esteja localizada em um único órgão, como o pulmão, é a reação do organismo para combater essa infecção que provoca a inflamação desregulada.

A sepse se manifesta em um espectro de gravidade crescente:

Fluxograma evolução da sepse
Imagem: Evolução da sepse – Autoria Própria.

No Brasil, a sepse é uma das principais causas de mortalidade hospitalar, superando o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e o câncer. A incidência em Unidades de Terapia Intensiva é de 36 casos por 1.000 pacientes/dia, com uma taxa de mortalidade de 55%.

Fatores de risco para pior evolução

  • Extremos de idade;
  • Doenças imunossupressoras;
  • Medicamentos imunossupressores;
  • Câncer;
  • Diabetes;
  • Abuso de álcool;
  • Cateteres venosos ou outras alterações na integridade cutânea.

Etiologia da Sepse

A sepse tem como principal causa a pneumonia, que pode evoluir para a condição em até 45% dos casos. Os focos de infecção mais comuns são:

  • Pulmão (64%);
  • Abdome (20%);
  • Corrente sanguínea (15%);
  • Trato geniturinário (14%).

A origem da sepse pode ser:

  • Comunitária (80% dos casos);
  • Nosocomial (adquirida em ambiente hospitalar);
  • Associada aos cuidados de saúde.

Os microrganismos mais frequentemente identificados incluem:

  • Gram-positivos: Staphylococcus aureus
  • Gram-negativos: Pseudomonas e Escherichia coli

Fisiopatologia da Sepse 

A sepse se inicia com uma infecção, que ocorre quando um microrganismo invade uma área estéril do corpo. As células imunes inatas, como os macrófagos, detectam e se ligam a esses componentes microbianos. Esse processo desencadeia uma série de eventos que levam à fagocitose e eliminação do invasor, além da remoção dos detritos do tecido danificado.

Durante essa resposta, os macrófagos liberam citocinas pró-inflamatórias, que atraem mais células inflamatórias. Essa reação é normalmente controlada por um equilíbrio entre mediadores pró e anti-inflamatórios e, geralmente, é suficiente para resolver a infecção, resultando na reparação e cicatrização dos tecidos afetados.

A sepse surge quando a liberação de mediadores pró-inflamatórios, em resposta à infecção, excede o controle local, resultando em uma resposta sistêmica generalizada. Essa generalização é um processo multifatorial, influenciado tanto pelo agente infeccioso quanto pelo hospedeiro, e pode ser causada por:

  • Ação direta de microrganismos invasores ou de seus produtos tóxicos;
  • Liberação excessiva de mediadores pró-inflamatórios;
  • Ativação do sistema complemento;
  • Predisposição genética à sepse.

A lesão celular é o ponto de partida para a disfunção orgânica na sepse, e ocorre por meio de dois mecanismos principais:

  • Isquemia tecidual: ocorre devido à insuficiência de oxigênio para atender às necessidades metabólicas do tecido inflamado;
  • Lesão citopática: refere-se à lesão celular direta, resultante da disfunção mitocondrial causada pelos mediadores pró-inflamatórios e do aumento da apoptose (morte celular programada).

Na sepse, os mediadores inflamatórios também contribuem para o desenvolvimento da coagulação intravascular disseminada, uma complicação grave caracterizada pela formação de microtrombos e hemorragias.

Sinais e sintomas relacionados à infecção

Sinais e sintomas relacionados à infecção
Imagem: sinais e sintomas relacionados à infecção – Autoria Própria.

Sinais de choque:

  • Pele fria, pálida e pegajosa;
  • Aumento do tempo de enchimento capilar;
  • Livedo;
  • Cianose de extremidades;
  • Estado mental alterado;
  • Redução do débito urinário;
  • Hipotensão arterial.

Os exames laboratoriais e de imagem são importantes para o diagnóstico e determinar o foco infeccioso da sepse a partir da comprovação de disfunção orgânica.

Exames diagnósticos:

  • Todos: hemocultura;
  • Pneumonia: Raio-X de tórax (PA e perfil);
  • Abdome agudo inflamatório: ultrassonografia de abdome;
  • Infecção do trato urinário: urina 1 e urocultura;
  • Infecção de cateteres: cultura de ponta de cateter;
  • Meningite: líquor;
  • Artrite séptica: artrocentese;
  • Endocardite: 3 pares de hemoculturas e ecocardiograma.

Diagnóstico da Sepse

O diagnóstico da sepse é feito quando há aumento de 2 ou mais pontos no score de SOFA:

Score de SOFA
Imagem: Score de SOFA. Medicina de Emergência, 2020.

Em pacientes com suspeita de infecção, tem-se utilizado ferramentas para triagem de pacientes com sepse possível:

  • SISR – Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (2 ou mais critérios): alta sensibilidade, mas baixa especificidade para sepse:
SISR - Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica
Imagem: Escore SISR – Autoria Própria
  • qSOFA (2 ou mais critérios): baixa sensibilidade, mas alta especificidade para sepse.
Escore qSOFA
Imagem: Escore qSOFA – Autoria Própria
  • NEWS 2 – National Early Warning Score 2 (4 ou mais critérios): Alta sensibilidade e alta especificidade. Indicada para o departamento de emergência:
National Early Warning Score 2 (NEWS 2) @Royal College Of Physicians 2017. Adaptação transcultural para português. Brasil, 2018.
Imagem: National Early Warning Score 2 (NEWS 2) -Royal College Of Physicians 2017. Adaptação transcultural para português. Brasil, 2018.

Tratamento da Sepse

Objetivos do cuidado inicial do paciente com quadro séptico:

  • Identificação do paciente com possível sepse;
  • Diagnóstico precoce da sepse; 
  • Coleta de culturas; 
  • Antibioticoterapia precoce e adequada;
  • Suporte às disfunções;
  • Ressuscitação volêmica conforme necessidade;
  • Vasopressor conforme necessidade;
  • Transferência para Unidade de Terapia Intensiva.

ANTIMICROBIANOS

É recomendado que a antibioticoterapia seja administrada o quanto antes, de preferência em até 1h da apresentação do paciente na emergência. 

Fatores que influenciam na escolha de anticrobianos:

  • Foco de infecção;
  • Uso prévio de antibióticos;
  • Internação recente ou uso de serviços de saúde; 
  • Comorbidades e imunossupressão;
  • Dispositivos invasivos;
  • Padrão de resistência locais.

RESSUCITAÇÃO VOLÊMICA

Em pacientes sépticos com sinais de má perfusão é recomendado a reposição volêmica inicial com 30mL/kg de peso de solução cristaloide nas primeiras horas, preferencialmente com ringer lactato.

A ressuscitação volêmica deve ser realizada em bólus, em infusão rápida

DROGAS VASOATIVAS

O alvo de pressão arterial média (PAM) em pacientes em choque séptico é de 65mmHg, e se necessário, drogas vasoativas são indicadas, e a droga vasopressora preferencial é a noradrenalina. A adição de uma segunda ou terceira droga à norepinefrina pode ser necessária.

SUPORTE ADICIONAL

  • Transfusões de hemácia devem ser reservadas para pacientes com nível de hemoglobina <7g/dL;
  • Caso seja necessário intubação traqueal, evitar drogas cardiodepressoras ou hipotensoras como midazolam, fentanil e profofol. Quetamina e etomidato são boas opções.
  • O controle glicêmico deve manter glicemia sérica <180mg/dL, se necessário utilizar insulina de ação rápida.
  • Realizar profilaxia de TEV em pacientes com mobilidade reduzida;
  • Em pacientes que evoluem com síndrome de disfunção de múltiplos órgãos e refratariedade ao tratamento, deve ser realizado a reavaliação de hipótese diagnóstica e plano terapêutico, além de se discutir terminalidade e cuidados paliativos. 

Referências

  • Velasco, IT. et al. Medicina de emergência: abordagem prática. 14 ed. Barueri. Manole. 2020.

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