Manejo da Obstrução de Via Aérea por Corpo Estranho (OVACE): Atualização AHA 2025

O engasgo ocorre quando um corpo estranho bloqueia parcial ou totalmente a passagem de ar pelas vias aéreas. Nos casos graves, a intervenção deve ser imediata para evitar perda de consciência e parada cardiorrespiratória.

Enf. Nemésia Sousa

Enf. Nemésia Sousa

Enfermeira Cardiologista pelo Programa de Residências do Hospital Sírio Libanês

Manejo da Obstrução de Via Aérea por Corpo Estranho (OVACE)
Manejo da Obstrução de Via Aérea por Corpo Estranho (OVACE)

A obstrução das vias aéreas por corpo estranho (OVACE) é uma emergência súbita, grave e potencialmente fatal. Sua gravidade varia de acordo com o nível de bloqueio da passagem de ar. Em casos de obstrução total ou quase total, especialmente na laringe ou na traqueia, a asfixia pode evoluir rapidamente e levar ao óbito. Já obstruções parciais ou causadas por objetos menores tendem a provocar sintomas mais leves.

Por isso, o reconhecimento rápido do quadro e o atendimento ágil, preciso e tranquilo são fundamentais para restabelecer a passagem de ar o quanto antes.

A OVACE pode ocorrer em qualquer idade, mas é mais frequente em crianças e idosos. Nas crianças, está relacionada principalmente ao hábito de levar objetos à boca e à falta de percepção dos riscos. Nos idosos, costuma ocorrer por dificuldades de mastigação, muitas vezes associadas ao uso inadequado de próteses dentárias.

Em adultos, é menos comum e geralmente está ligada à ingestão acidental de pequenos objetos ou a situações de perda de consciência, como sedação, intoxicação, convulsões e alterações neurológicas.

No Brasil, a OVACE é a terceira maior causa de acidentes seguidos por morte, em crianças e lactentes.

Classificação

A OVACE pode ser classificada conforme a causa, a gravidade da obstrução e o nível de responsividade da vítima.

Etiologia

Quanto à causa, a obstrução pode ser:

  • Intrínseca: ocorre por fatores internos, como a queda da base da língua em situações de trauma ou perda de consciência.
  • Extrínseca: causada pela aspiração de alimentos, objetos ou outros corpos estranhos.

Gravidade

A obstrução pode ser leve ou grave.

Na obstrução leve ou parcial, ainda existe passagem de ar, embora com dificuldade. A vítima consegue respirar, falar ou tossir e, enquanto houver troca gasosa adequada, permanece consciente. Nessa situação, o socorrista deve incentivar a tosse espontânea e os esforços respiratórios, pois a saída de ar dos pulmões pode favorecer a expulsão do objeto.

Na obstrução grave ou total, a vítima não consegue respirar, falar ou tossir. O quadro pode evoluir para cianose nos lábios e nas extremidades, indicando falta de oxigenação. A pessoa também pode apresentar o sinal universal de asfixia, levando uma ou ambas as mãos ao pescoço. Nesse caso, é necessária intervenção imediata.

Sinal Universal do Engasgo
Imagem: Sinal Universal do Engasgo. Gerada por Inteligência Artificial.

Responsividade

A vítima pode estar:

  • Consciente: geralmente apresenta agitação, ansiedade e angústia, demonstrando necessidade urgente de ajuda.
  • Inconsciente: com a progressão da falta de oxigênio, pode perder a consciência e tornar-se irresponsiva.

Manejo

Em 2025, a American Heart Association (AHA) divulgou uma atualização importante das Diretrizes de Ressuscitação e Emergências Cardiovasculares, incluindo mudanças no protocolo de desobstrução das vias aéreas por corpo estranho (OVACE), popularmente chamado de “manobra de desengasgo”.

A revisão foi elaborada com base em novas evidências observacionais e tem como objetivo tornar as condutas mais uniformes para bebês, crianças e adultos, além de facilitar o ensino e a aplicação das técnicas em situações de emergência.

O que mudou?

A principal mudança apresentada pela AHA em 2025 foi a recomendação de alternar ciclos de cinco golpes nas costas com cinco compressões, que podem ser abdominais, torácicas ou esternais, conforme a faixa etária da vítima.

Anteriormente, o protocolo para adultos e crianças orientava iniciar diretamente pelas compressões abdominais, conhecidas como manobra de Heimlich. Já os golpes nas costas eram indicados principalmente nos casos de engasgo em bebês.

Essa nova padronização busca aumentar a eficácia na expulsão do corpo estranho, diminuir o risco de lesões internas e tornar o ensino das manobras mais uniforme entre bebês, crianças e adultos.

Manobra em Adultos:

Em adultos com OVACE grave, o atendimento deve começar com cinco golpes firmes nas costas, aplicados entre as escápulas, seguidos de cinco compressões abdominais.

Posicionar-se atrás da vítima, envolvendo-a com os braços.

Fechar uma das mãos, com o punho bem fechado e o polegar por cima, e posicioná-la na região superior do abdômen, entre o umbigo e o a caixa torácica;

Puxar com força ambas as mãos para dentro e para cima.

A sequência deve ser repetida até que o corpo estranho seja expelido ou até que a vítima perca a consciência.

Quando não for possível realizar compressões abdominais, como em gestantes no terceiro trimestre ou em pessoas com obesidade, recomenda-se substituí-las por compressões torácicas, aplicadas na metade inferior do osso esterno.

Manobra de Desengasgo em Adultos
Imagem: Manobra de Desengasgo em Adultos – Autoria Própria com auxílio de Inteligência Artificial.

Manobra em Crianças

A AHA aproximou o protocolo pediátrico do utilizado em adultos, reduzindo diferenças que frequentemente causavam confusão durante os treinamentos.

Assim, o atendimento também deve ser iniciado com cinco golpes nas costas, seguidos de cinco compressões abdominais. Os ciclos devem ser alternados até que a via aérea seja desobstruída ou até que a criança perca a consciência.

Manobra de Desengasgo em Crianças
Imagem: Manobra de Desengasgo em Crianças – Autoria Própria com auxílio de Inteligência Artificial.

Essa abordagem foi adotada com base em dados que indicam boa eficácia dos golpes nas costas e menor risco de complicações quando comparados ao uso isolado de compressões.

Manobra em Bebês

Em bebês menores de um ano com OVACE grave, as compressões abdominais permanecem contraindicadas devido ao potencial risco de lesões nos órgãos abdominais.

A nova diretriz mantém a realização de cinco golpes nas costas, seguidos de cinco compressões torácicas sobre o esterno com a técnica da base de uma mão. A sequência deve ser repetida até que o corpo estranho seja eliminado.

Manobra de Desengasgo em Bebês
Imagem: Manobra de Desengasgo em Bebês – Autoria Própria com auxílio de Inteligência Artificial.

A AHA destaca que, embora essas compressões sejam semelhantes às utilizadas na reanimação cardiopulmonar, neste caso o objetivo é desobstruir a via aérea, e não restabelecer a circulação.

Essas mudanças foram fundamentadas em estudos observacionais que apontaram maior taxa de desobstrução e menor ocorrência de lesões quando o atendimento é iniciado com golpes nas costas.

A AHA atribui a essa recomendação nível de evidência B, considerado moderado, e classe de recomendação IIa. Isso significa que os benefícios da conduta são superiores aos riscos, embora ainda sejam necessários mais estudos controlados para fortalecer as evidências disponíveis.

Condutas Adicionais

A diretriz reforça que não deve ser realizada a varredura cega da cavidade oral. O socorrista só deve tentar retirar o corpo estranho quando ele estiver visível.

Caso a vítima perca a consciência durante a manobra, deve-se iniciar a reanimação cardiopulmonar (RCP) imediatamente, alternando compressões e ventilações de acordo com o protocolo. A inspeção da cavidade oral deve ser feita apenas antes das ventilações.

Essa conduta reduz o risco de empurrar o objeto para regiões mais profundas da via aérea e ajuda a prevenir lesões orofaríngeas.

O que muda na Prática?

A atualização torna necessária a revisão imediata dos manuais de primeiros socorros, dos materiais didáticos e dos protocolos institucionais de emergência.

Hospitais, instituições de ensino em saúde e serviços de atendimento pré-hospitalar devem atualizar seus fluxogramas de OVACE, incorporando o novo ciclo 5×5, composto por cinco golpes nas costas alternados com cinco compressões.

Além disso, os cursos de capacitação e reciclagem devem dar prioridade às simulações práticas, reforçando a execução correta das manobras e a tomada de decisão rápida entre golpes nas costas, compressões e início da reanimação cardiopulmonar.

Conclusão

As atualizações representam um avanço importante na abordagem do desengasgo, ao combinar segurança, eficácia e simplicidade.

Ao padronizar o início das manobras com golpes nas costas em todas as faixas etárias e reforçar a realização de ciclos alternados, a AHA estabelece um protocolo mais claro, coerente e fácil de compreender.

Além de contribuir para uma resposta mais eficiente em situações críticas, essa atualização favorece uma maior uniformidade no ensino de primeiros socorros em diferentes contextos e amplia a segurança tanto de quem presta o atendimento quanto de quem recebe o socorro.

Referências:

AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Destaques das Diretrizes de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da American Heart Association 2025. Dallas: American Heart Association, 2025. 40 p. Disponível em: https://cpr.heart.org/en/resuscitation-science/cpr-and-ecc-guidelines/adult-basic-and-advanced-life-support. Acesso em: 28 out. 2025.

AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Highlights of the 2025 American Heart Association Guidelines for CPR and ECC. Dallas: American Heart Association, 2025. Disponível em: https://cpr.heart.org/-/media/CPR-Files/2025-documents-for-cpr-heart-edits-posting/Resuscitation-Science/JN1580_PTBR_Hghlghts_2025ECCGuidelines_Final_251021.pdf. Acesso em: 28 out. 2025.


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